Na magnifica obra “Grande Sertão: Veredas” há uma passagem que diz que “passarinho que debruça – o voo já está pronto.” Essa sabedença me foi relembrada dias atrás por um amigo de infância ao relatar, com triste e constrangida casualidade, que seu filho havia trancado matrícula, pois que havia decidido deixar o país e tentar melhor sorte “lá fora.”

Segundo o Atlas das Juventudes da FGV Social, recentemente divulgado pela mídia, uma juventude insatisfeita e decepcionada demonstra forte interesse em deixar o Brasil, visto que 70% dos jovens têm dificuldade para encontrar trabalho. Desemprego que, por sinal, atingiu 14,6% da população economicamente ativa no último trimestre do ano passado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE). Neste contexto a renda da metade mais pobre dos jovens brasileiros caiu 24,24%, bem mais que os 14,66% da média geral da população. Outro fato inquietante é que a proporção dos jovens que não estudam e nem trabalham, os chamados “nem-nem”, aumentou de 23,4% em 2014 para 26,2% em 2019, certamente muito mais nesse período de pandemia. Vale acrescentar que mesmo entre aqueles que conseguiram o diploma universitário entre 2014 e 2018 a taxa de desemprego no primeiro ano foi de aproximadamente 45% segundo o Núcleo Brasileiro de Estágios (NUBE). Segue, portanto, a obviedade comumente desconsiderada de que não há maior desperdício para uma nação do que o desprezo do potencial de sua gente, em especial, de sua juventude. Afinal, os jovens, nossos filhos, nos são presenteados pela vida até para nos ensinar empatia. Sentimento fundamental nesse momento de entorpecimento coletivo em face da estupidez generalizada. Sentimento que, aliás, transcende o egoísmo para além da nossa própria exigência de reciprocidade. É o amor mais desprovido de interesses outros senão aquele do próprio bem-estar do ser amado. Os jovens representam, assim, o legado dos ensinamentos e exemplos de uma geração para assumirem a herança do mundo que lhes é entregue. Lamentavelmente, o que está sendo repassado é uma lástima em variados e vitais aspectos. Senão, vejamos.

O protagonismo do Brasil no mundo é inegável. O Brasil é a 9ª economia mundial de acordo com dados recentes do Banco Mundial, possuindo a 6ª maior população do planeta. A título de exemplo vale destacar, apenas como um dos muitos diferenciais que o país possui, nossa responsabilidade pela maior parte da Amazônia. Território este que abrange não apenas a maior floresta tropical do mundo, mas também abriga pelo menos 10% da biodiversidade mundialmente conhecida. A platitude da importância da Amazônia e consequente responsabilidade do Brasil é acachapante, mas patina-se nas políticas públicas capazes de garantir a preservação o desenvolvimento sustentável dessa maravilha da natureza, vital para nossa sobrevivência como espécie. Ações que se fazem necessárias e que se implementadas seriamente fossem, certamente, trariam dividendos econômicos para todo o país, em especial às populações mais desassistidas dessa região. Ainda assim, nesse e em variados outros setores, as medidas e os consequentes resultados têm sido pífios, tanto no Brasil quanto no resto do mundo.

Com o crescimento populacional e os maus tratos que têm sido infringidos à natureza os recursos que o planeta é capaz de produzir até o final deste ano já terão se esgotados em 29 de julho. Ainda assim, os recursos da Terra não atendem às necessidades de subsistência da maior parte da humanidade devido à concentração crescente de riqueza na mão de uma parcela cada vez menor da população. A Oxfam no início do ano passado, por ocasião do Fórum Economic Mundial em Davos, alertou que os 2.153 maiores bilionários do mundo detêm mais riqueza do que os 4,6 bilhões de pessoas que constituem 60 por cento da população mundial. Esclarece-se que não se prega, ingênua e equivocadamente, a mera distribuição de riqueza, mas tão somente políticas públicas seriamente implementadas para que um maior contingente populacional possa usufruir de melhor qualidade de vida.

Um dos indicadores que mais adequadamente expressam a qualidade de vida é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), no qual o Brasil ocupa com 0,762 pontos a 84ª posição de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2020 da ONU. Por outro lado, para se medir como a prosperidade é compartilhada tem-se o Indicador de Desigualdade (GINI). Tristemente, o Brasil é o 8º país mais desigual entre 195 nações com 53,4 pontos no GINI, segundo os últimos dados coletados pelo Banco Mundial. Esse quadro deplorável, para ser amenizado, careceria de abordagem humanística e racional por parte daqueles que têm a responsabilidade por governar o país. O que se observa, no entanto, é o acirramento do extremismo ideológico, da desigualdade econômica e do negacionismo do conhecimento acumulado pela humanidade em favor de preconceitos e superstições que só segregam e abusam, consequentemente, disseminando miséria e ignorância. Não é por acaso que o Brasil ocupa o trágico 3º posto da nação com mais mortes pela COVID-19 e o 10º em mortes por milhão de habitantes.

Parte expressiva dos jovens brasileiros querem ir embora, seja pela ausência de oportunidades, pelas dificuldades de subsistência ou mesmo desgostosos com a lambança sem precedentes na condução do nosso país. Com honrosas exceções, que só comprovam a regra, assiste-se a esse interminável desfile de indivíduos se sucedendo no comando da nação para – uma vez empossados – atuarem de maneira nefasta e polarizada com o intuito de garantir meios não republicanos para o ressarcimento de seus escusos compromissos. Ato contínuo, extorquem recursos extras para se manterem a si e aos seus apaniguados com vistas à manutenção do poder nos pleitos seguintes. Sem qualquer real motivação para concentração de esforços na gestão responsável, a estupidez praticada e disseminada campeia garantindo a perpetuação de um processo nefasto que só contamina e compromete, geração após geração. Agora mesmo estamos nos aproximando de mais um processo eleitoral em que a polarização se apresenta como real possibilidade. Essa ciranda cruel tem sido a tônica em nossa história e sequer aventá-la – podem alguns argumentar – é sinal de extrema ingenuidade. Todavia, pelo excesso de esperteza e não de idealismo é que nos encontramos nesse estado lastimável que precisa, em prol das novas gerações, ser estancado e revertido, urgentemente.

Com o intuito de mitigar esse quadro deplorável vale questionar a responsabilidade institucional dos formuladores e executores de políticas públicas. Como muitos brasileiros que ocuparam cargos na administração pública – e nela não se enriqueceram, que não possuem uma profusão de imóveis como coberturas na praia e nem tiveram os filhos adquirindo mansões de milhões de reais em reduzido espaço de tempo – questiona-se o contexto das políticas públicas, notadamente educacionais e de promoção ao emprego, que possam contribuir efetivamente para o aumento do IDH e da redução do GINI. Questionamento esse que faço não apenas na condição de cidadão, mas como pai e, portanto, como representante de uma geração.

A sabedoria da vida ensina que os filhos um dia se vão, é bem verdade. Fico pensando na saudade dos pais, como do meu amigo com a partida do filho, enquanto ouço ao longe a voz do Renato Teixeira na belíssima “O Trem do Pantanal”:

“Enquanto este velho trem atravessa o pantanal
O povo lá em casa espera que eu mande um postal
Dizendo que eu estou muito bem, vivo
Rumo a Santa Cruz de La Sierra”

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