Yuri Pinheiro Bernardi tinha 18 anos quando entrou, em 2017, no curso de Ciência da Computação na Universidade de Caxias de Sul (UCS), localizada na Serra gaúcha. A paixão pela informática desde a infância pesou na escolha da carreira.

Mas o que deu firmeza à decisão foi a certeza de empregabilidade na área. Para Bernardi, não adiantava fazer um curso que não lhe garantisse um emprego depois da formatura. “A migração para a tecnologia não para. Isso garante o crescimento do mercado e, consequentemente, demanda por mão de obra”, diz.

Bernardi está corretíssimo. Segundo a Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), o setor não para de crescer. A previsão é criar 421 mil vagas até 2024. São mais de 100 mil novas vagas por ano.

Quando se trata de Tecnologia da Informação (TI), a oferta é tanta que a empregabilidade ocorre bem antes da formatura no ensino superior. Yuri Bernardi, que começou a trabalhar na área no terceiro período do curso, é exemplo disso.


Yuri Bernardi, desenvolvedor da Prediza

Hoje, aos 22 anos, Bernardi é desenvolvedor na Prediza. A empresa, instalada no Parque de Ciência, Tecnologia e Inovação da UCS (TecnoUCS), coleta e analisa dados de lavouras com ajuda de Inteligência Artificial (IA), municiando agricultores com informações relevantes para a gestão do agronegócio.

A ciência de dados e a IA, aliás, estão entre as áreas que puxam o crescimento do setor de TI. Nos próximos três anos, devem receber investimentos anuais de, respectivamente, R$ 5,5 bilhões e R$ 1,9 bilhão.

Ao todo, conforme a Brasscom, o mercado brasileiro de TI vai investir R$ 90 bilhões por ano até 2024. Em 2019, movimentou R$ 494 bilhões, o equivalente a 6,8% do PIB.

A questão é que faltam profissionais disponíveis para sustentar o crescimento da TI no Brasil. Há um excesso de vagas e escassez de mão de obra qualificada. Estima-se que o déficit anual no setor é de 50 mil profissionais.

Conforme as vagas disponíveis acumulam, o abismo não para de crescer. Tendo em vista a aceleração da transformação digital durante a pandemia, é possível que o gap aumente ainda mais. Será que o ensino superior pode suprir a falta de profissionais de TI no Brasil?

Na sequência desta reportagem, o Desafios da Educação explica como as dinâmicas do mercado de trabalho levaram à ociosidade de vagas. Também ouvimos coordenadores de curso, especialistas do setor e alunos para entender por que as instituições de ensino superior não conseguem formar mais profissionais de TI – e, finalmente, o que poderiam fazer para reverter esse quadro.

As dinâmicas do mercado de trabalho na TI
A professora Maria de Fátima Webber do Prado Lima é coordenadora dos cursos de TI na UCS. Ela diz que a instituição costuma acompanhar a trajetória profissional dos egressos. Em comum, a constatação óbvia: todos estão empregados.

O feito não é trivial. Uma pesquisa do Valor Econômico e do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), divulgada em abril, apontou que mais da metade (52,1%) dos formados entre o fim de 2019 e de 2020 está fora do mercado. Dos que trabalham, menos da metade atua na área de formação.

Na TI, além da alta empregabilidade, outro fenômeno é cada vez mais comum. “Conforme vão se especializando, os egressos migram de Caxias do Sul para Porto Alegre. Depois, vão para São Paulo. Em seguida, muitos vão para os Estados Unidos, Canadá e Europa.” A significativa perda da mão de obra para o mercado do exterior decorre do salário pago pelas empresas estrangeiras, que chega a ser o dobro da remuneração aplicada aqui.

Um levantamento da revista Você S/A junto ao site global de avaliação do mercado de trabalho Glassdoor apontou que o salário médio de um engenheiro de dados no Brasil é de R$ 8.000. Já um desenvolvedor Python e um programador Java ganham, em média, R$ 4.500 e R$ 3.800 respectivamente.

Além do mais, a adesão em massa ao home office abriu fronteiras digitais. Hoje, um brasileiro pode muito bem trabalhar para uma empresa estrangeira em sua casa no Brasil. E ainda ganhar em dólar.

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