Eles não conhecem o mundo sem internet e, desde cedo, convivem com a tecnologia e as conexões virtuais. Têm idade entre 18 e 25 anos e integram o primeiro grupo da chamada Geração Z a ingressar nas universidades e no mercado de trabalho. Esta geração compreende os nascidos entre 1995 e 2010 que, pelo contexto em que cresceram, possuem habilidades que vão desde a familiaridade com as plataformas digitais até a capacidade de realizar várias atividades ao mesmo tempo. Segundo especialistas, também podem apresentar características desafiadoras, já que o costume com a instantaneidade tende a criar um comportamento mais impaciente, e a aptidão para ser multifuncionais pode levar à dispersão. A expectativa é que estes jovens tragam mudanças consideráveis para o ambiente e as relações de trabalho. Mas quais são as aspirações desta juventude? As organizações estão preparadas para recebê-la e abertas às suas contribuições?

A Tribuna ouviu especialistas e, também, jovens que estão prestes a ingressar ou já estão no mercado de trabalho sobre como tem sido a jornada profissional da Geração Z. “A principal mudança que molda o comportamento dessa juventude é a influência da tecnologia na percepção dos ciclos”, avalia o psicólogo e sócio fundador da Talent Hunter, José Simão da Silva Júnior. “Os ciclos reduziram muito com a tecnologia. Enviar uma mensagem por carta demora infinitamente mais do que pelo WhatsApp, por exemplo. A mesma comparação pode ser feita com o ato de revelar uma foto e o uso dos celulares, que permite a materialização da imagem de modo instantâneo. Crescer em meio a toda esta tecnologia fez com que a Geração Z acredite que o amadurecimento e a evolução da carreira também devam seguir a mesma regra, o que nem sempre é verdadeiro na prática.”

De acordo com Simão, os jovens desta faixa etária costumam ser autênticos e espontâneos. “Tendem a não seguir hierarquias e buscam conciliar o propósito pessoal com as atividades que desempenham. Eles precisam muito acreditar no que estão fazendo.” E, uma vez motivados, trabalham para alcançar o crescimento próprio e o da empresa. “No imaginário das pessoas, a juventude está alheia à realidade, pois vive on-line. Contudo, na maioria dos casos, percebemos que ela utiliza os recursos da web como forma de otimizar o tempo e render mais”, afirma o analista de treinamento do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), Everton Santos.

Interesses
Esta geração tem prioridades diferentes em comparação às anteriores. Ter uma boa remuneração que ofereça segurança financeira e garanta a compra do carro ou da casa própria não é mais o foco. Entre os jovens ouvidos pela Tribuna, há unanimidade de que a oferta de horário flexível pelas empresas é o principal atrativo em uma vaga de emprego. Outro desejo em comum é a vontade de que a rotina de trabalho seja dinâmica.

A sequência de prioridades do que eles desejam do mercado segue esta ordem: horário flexível, dinamismo da rotina, bom relacionamento com a equipe, possibilidade de crescimento, boa remuneração e reconhecimento do trabalho realizado. Para alcançar o que almejam, estão dispostos a mudar de cidade ou até mesmo de país, ou ainda, abrir o próprio negócio.

Discriminação é principal motivo de desistência

Além dos atrativos, a juventude também tem certeza sobre os motivos para a desistência de uma vaga de emprego. Pesquisa do Nube, realizada com cerca de 24 mil jovens em novembro de 2019, revelou que metade dos entrevistados (50%) desistiria de uma oportunidade por conta do histórico de discriminação e preconceito da empresa. Outros 20% o fariam por causa de envolvimento da organização com casos de corrupção. A ausência de plano de carreira seria fator decisivo para 10%, enquanto os problemas ambientais são considerados por 3%. A parcela de jovens que informou não se importar com nenhuma destas questões foi de 17%. Os percentuais foram arredondados.

O resultado deixa claro que a maior parte dos entrevistados (73%) mostrou-se preocupada com questões sociais, éticas e ambientais. “Os jovens consideram o quanto a organização se importa com a promoção da diversidade. Qualquer sinal de segregação é um desrespeito pessoal com o candidato”, diz o analista de treinamento do Nube, Lucas Fernandes. Para o especialista, também merece destaque a parcela que respondeu que desistiria de uma vaga por conta da ausência do plano de carreira. “Contrariando a visão de muitos, os jovens também preferem ficar no mesmo empreendimento, caso possam aprender algo e se desenvolver como pessoas.”

Sobre aqueles que informaram que não desistiriam de uma vaga de emprego, o especialista avalia a resposta como reflexo da crise. “O país passa por um período com uma parcela significativa da população fora do mercado. Por isso, há uma parte destes jovens disposta a ocupar vagas, mesmo que estas possam divergir de seus princípios.”

Conectados e multifuncionais, o que os jovens esperam do mercado

Aos 20 anos, Ramon Marques tem uma agenda atribulada. Morador do Bairro São Judas Tadeu, na Zona Norte, ele acorda às 6h da manhã e, em alguns dias da semana, retorna para casa depois da meia noite. Logo cedo, no ônibus da linha 755 que faz o percurso direto para a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), aproveita para se informar pelo smartphone. “Como o trajeto demora cerca de 1h30, este é o momento que leio notícias, acesso redes sociais, escuto música.”

Na UFJF, ele divide o tempo entre as aulas do curso de Engenharia de Produção, o estágio no Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia (Critt) e a função de diretor administrativo da Supernova Rocketry, equipe de foguetemodelismo da instituição. Esta jornada termina por volta das 23h, quando novamente usa a linha 755 para voltar para casa, onde mora com a mãe, os avós e uma tia. “Queria ser engenheiro civil porque meu avô é pedreiro, e eu sempre tive ele como um espelho na minha vida. Mas, na verdade, não conhecia as demais áreas da engenharia para me decidir com certeza.”

A decisão sobre o curso superior veio cedo, aos 16 anos, quando trabalhou como menor aprendiz em um hotel. “Comecei o estágio para ter minha independência financeira e poder ajudar em casa. Ali eu descobri que queria trabalhar com resolução de problemas.” O sonho é ser gerente de uma grande empresa. “Não teria problema em mudar de cidade ou até de país”, diz. “Todo jovem está inseguro com relação ao mercado de trabalho, se uma oportunidade fora aparecesse, eu não teria problema nenhum em aceitar.”

Dinamismo
O dia a dia de Ana Paula Monachesi, 22 anos, também é corrido e se divide entre aulas, estágio e as tarefas da diretoria da Atlética, organização sem fins lucrativos responsável por promover atividades esportivas e representar os cursos da UFJF nos Jogos Universitários. A agenda lotada não permitiu que ela desse continuidade ao trabalho na ONG Engenheiros Sem Fronteiras, onde atuou como voluntária por dois anos. “Foi uma experiência maravilhosa, que precisei deixar por enquanto.”
As muitas tarefas do dia não a incomodam, pelo contrário. “Não consigo me adaptar à rotina, gosto desse dinamismo.” E é isto que ela espera encontrar no mercado de trabalho. “Não me imagino numa sala sozinha, para mim é muito importante estar com pessoas, trabalhar em equipe. Se eu pudesse escolher uma vaga de emprego, com certeza, priorizaria um lugar que tivesse um bom relacionamento entre os profissionais.”

O que é valorizado na hora da contratação

Para esta geração, a busca por uma oportunidade no mercado começa cedo e tem o intuito de garantir a independência financeira. “A faixa etária dos 18 aos 25 anos concentra boa parte dos candidatos que recebemos”, informa o psicólogo e sócio-fundador da Talent Hunter, José Simão da Silva Júnior. “Em geral, estes candidatos possuem ensino médio e estão iniciando uma graduação. As áreas de interesse são relacionadas à tecnologia, gestão de pessoas e ao marketing.”

Muitas vezes, o estágio é a porta de entrada para o mercado, como aconteceu com Gustavo Paschoalini, 21 anos. “Meu primeiro emprego foi como aprendiz, aos 16, quando fazia curso técnico”, relembra. “Sempre morei com meus pais, mas queria ter certa independência financeira e, por isso, comecei a trabalhar.” O interesse por tecnologia o levou a cursar a faculdade de Sistemas de Informação. Durante o curso, ele realizou estágio em uma empresa que acabou por efetivá-lo. “Ser estagiário é uma forma de aprendizado muito boa, que permite desenvolver habilidades e trocar experiência”, analisa. “Percebo que as empresas valorizam proatividade e conhecimento. Na hora da contratação, buscam quem está disposto a crescer com elas.”

A recepcionista Verônica Reis Lopes Gomes, 24 anos, atua há seis no mercado de trabalho formal. “Sempre trabalhei para ter o meu próprio dinheiro, mas observei que na hora da contratação também valorizam a experiência profissional, então, acho importante continuar na ativa”, relata. “Ser comunicativo e saber lidar com o público são outras características que as empresas priorizam.” Aluna do curso superior de Matemática, ela pretende seguir a carreira acadêmica. “Quero muito fazer mestrado e doutorado. Acredito que minha experiência profissional pode contribuir positivamente, pois trabalhar desde cedo me fez amadurecer, ser disciplinada e responsável com minhas obrigações.”

Adaptação
Na avaliação de Simão, esta geração tem muito a contribuir para o ambiente e as relações de trabalho. “Eles possuem velocidade de aprendizagem, são inovadores e têm maior capacidade de escalar resultados através de ferramentas tecnológicas/digitais”, pontua. “Por estarem mais propensos a correr riscos, estes jovens podem alavancar resultados significativos.” No entanto, isto requer uma adaptação do mercado de trabalho como conhecemos hoje. “As organizações devem ser capazes de analisar e implementar mudanças com mais velocidade, sendo habilidosas em avaliar cenários e testar hipóteses. A gestão de pessoas talvez represente o maior desafio, pois a tendência é de que, cada vez mais, as práticas de Recursos Humanos sejam dinâmicas e individualizadas, e não estáticas e generalizadas.” 

Empreender é caminho natural

Outra contribuição da Geração Z ao mercado de trabalho é o fomento ao empreendedorismo. “Enquanto as gerações anteriores buscavam maior segurança, fosse num bom emprego em que se mantivessem por anos ou no concurso público, os jovens de agora enxergam a abertura do próprio negócio como uma possibilidade viável. Não é apenas uma alternativa, mas um caminho que pode ser escolhido”, explica a analista técnica do Sebrae em Juiz de Fora, Daniela Fabri.

Para ela, o fato desta geração ter crescido em meio ao período de fortalecimento da cultura empreendedora contribuiu para esta mudança de comportamento em comparação com as gerações anteriores. “O assunto empreendedorismo é mais difundido. As universidades e instituições de ensino incentivam esta prática”, analisa. “O contexto em que vivemos é outro. Empreender significa solucionar problemas, e o Brasil é um local onde há muitas demandas a serem solucionadas.” Daniela destaca que os empreendimentos de impacto social atraem muitos jovens. “É uma geração preocupada com o futuro e interessada em solucionar problemas.”

Planejamento

O planejamento de cursar a faculdade, conseguir um emprego e abrir o próprio negócio foi definido por Eduardo Ximenes bem cedo, aos 14 anos. Hoje, aos 19, e cursando a faculdade de Engenharia de Produção, ele já deu o primeiro passo nesta trajetória e conta com segurança como pretende seguir esta caminhada. “O empreendedorismo sempre me encantou. Meu pai empreende há um tempo e, desde mais novo, eu tinha a visão de fazer isso no futuro.”

Foi por este interesse que iniciou o estágio no Critt da UFJF. “Estou aprendendo bastante. Aqui a gente lida direto com as empresas incubadas (startups). Fazemos um trabalho de prospecção para o programa de incubação e oferecemos suporte. É uma via de mão dupla, pois a gente ajuda quem chega e também aprende.” Nascido no interior de Tocantins, morou nos estados do Rio de Janeiro e da Bahia antes de chegar à Juiz de Fora. “Moro sozinho e, desde cedo, criei um senso de organização, responsabilidade. Quando morei com meu pai, trabalhei na empresa dele, mas a minha intenção é ter o meu próprio negócio.” Os riscos inerentes ao empreendedorismo são vistos como desafios que motivam e não como entraves. “Para empreender é preciso gostar do que faz.”

A universitária Laís Gonçalves, 21 anos, concorda. “Hoje em dia, a gente sabe que pode ser funcionário de uma empresa, se dedicar ao máximo, e amanhã não ser mais. Também é arriscado”, compara. Ela conta que também pretende se formar e trabalhar no próprio negócio. “Meu pai tem uma empresa na área de serviços, em Rio Pomba, e eu gostaria de fazer o empreendimento crescer.” Caso a ideia não se concretize, ela pensa em adquirir experiência no mercado para, futuramente, empreender por conta própria.

Para ela, a definição de realização profissional consiste em trabalhar com algo que permite o crescimento pessoal e desenvolvimento profissional. “Quero algo que vai me acrescentar em informação e aprendizado. A remuneração é importante, mas eu quero em sentir produtiva.”

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