Maria Claudia Teixeira já tinha uma carreira no setor administrativo e havia deixado de lado o sonho de um diploma universitário porque nunca sobrava dinheiro. Foi quando ganhou uma bolsa de estudos e decidiu, enfim, cursar a faculdade. “Seis meses depois, perdi meu emprego e percebi que tinha feito a escolha certa. Afinal, para voltar ao mercado sem diploma seria difícil”. Com isso, aos 35 anos, casada e com filhos, ela virou estagiária.

Longe daquele estereótipo do jovem de vinte e poucos anos que ronda o imaginário popular, casos de estagiários com mais de 30, como Maria Claudia, estão se repetindo cada vez mais. Segundo especialistas, alguns fatores, como a crise econômica, que faz com que as pessoas busquem outras carreiras, fugindo do desemprego, e um mercado cada vez mais exigente têm colaborado com esse cenário.

“Por muito tempo, ao se pensar em programas de estágio, vinha à cabeça a imagem do jovem que acabara de entrar na universidade e se encontrava em busca de sua primeira experiência. Porém, o perfil do estagiário tem mudado, assim como o da população ativa no mundo corporativo”, afirma o analisa de treinamento do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), Lucas Fernandes.

Com experiência

Segundo Fernandes, a maior parte dos estagiários com idades entre 30 e 40 anos já teve experiências profissionais em outras áreas e, devido a questões econômicas, optou por investir em outra carreira, no intuito de ampliar o leque de possibilidades de emprego.

“Outro percentual diz respeito a pessoas que investiram em negócios próprios ou até mesmo ficaram fora do mercado para se dedicar a questões pessoais, mas agora estão retornando e encontrando no estágio a principal porta de entrada”. Por fim, outra parte significativa dos estagiários com mais de 30 anos é composta por quem se estabilizou e decidiu retomar um sonho antigo de atuar no segmento que sempre quis.

Foi o que aconteceu com Lucas Pereira de Jesus. Perto de completar 31 anos, ele está no sexto semestre do curso de Administração. Já teve outros trabalhos, mas só agora se estabilizou para cursar o ensino superior. É um sonho e uma nova oportunidade, mas nem tudo são flores, conta ele.

Dificuldades

“Passei por vários processos de entrevista, em alguns notei que a idade era um problema para vários recrutadores. Parece que na visão deles a bagagem pode trazer vícios de costume”, avalia Maria.

Outro ponto que se apresenta como um desafio para os estagiários mais velhos é a remuneração, que nem sempre é compatível com os compromissos da vida adulta, sem a ajuda dos pais, por exemplo.

No caso de Geso Vitor da Silveira, as dificuldades vão além. Ele trabalhou durante muito tempo no setor de Gastronomia. Com espondilite anquilosante, ele tem limitações de movimento. Em 1999, sofreu um acidente e perdeu uma das pernas.

“Por isso, me aposentei há alguns anos, mas resolvi fazer Direito para tentar resolver a ação do acidente que está na Justiça até hoje”. Geso tem 51 anos e é estagiário de Direito.

Além das limitações físicas, ele também afirma que a tecnologia é um desafio. “Eu sou da época da manivela e tenho mais dificuldades para manusear o sistema. Os jovens nasceram nessa época digital, é mais fácil”.

Perfil do estudante tem mudado

O superintendente do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) da unidade de Santos, Marcelo Paschoal, afirma que dos pouco mais de 4 mil contratos de estágio ativos na região, 74 são de estudantes com mais de 30 anos.

O levantamento foi feito a pedido de A Tribuna, mas como os dados não eram tabulados nos anos anteriores, não é possível fazer um comparativo, de acordo com Paschoal. Mas para ele, o perfil do estudante tem mudado o que, consequentemente, altera o perfil dos estagiários.

“A conscientização da necessidade do Ensino Superior é um ponto. A competitividade é enorme e sem o diploma, fica difícil”. Apesar das dificuldades citadas pelos estagiários, Paschoal afirma que os mais velhos levam vantagem em alguns pontos.

“No caso do estagiário que já tenha vivenciado outros trabalhos, a empresa consegue focar no desenvolvimento de habilidades técnicas, já que ele tem experiência no mercado, como se portar, conviver em grupo”. Paschoal conta que já foi questionado por estudantes mais velhos se poderiam ou se fazer estágio seria uma boa decisão.

Bagagem

“Eles chegam com dúvida e tímidos. E a dica é que sigam em frente e nunca desistam dos estudos, independente da idade. No processo seletivo, eles podem destacar a vivência que tiveram e como essa experiência na bagagem pode ajudar a empresa. Sem deixar de mostrarem que estão abertos a aprender aquilo que precisam”.

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